Agosto de 1997 - 2007
Ponto de paragem obrigatório desde os meus 13 anos, altura em que não existia festival e em que o turismo se resumia a alguns lisboetas e nortenhos, amantes de praias desertas e da calmaria alentejana. Conheci Zambujeira da mesma forma que conheci meio mundo, passando férias com o meu tio. Nos últimos anos, como vamos de férias com a minha avó, alugamos sempre uma casa perto da farmácia, a "Casa da Suíça" (o dono é emigrante) e quando vamos para praias mais afastadas vamos de carro. Mas à dez atrás ficávamos sempre em campismo e no carro só pegávamos para ir jantar fora, normalmente ao "Traquitanas" (já lá vamos há tanto tempo que o actual gerente/dono é o filho do patrão dessa altura).
Para quem não conhece Zambujeira, o parque de campismo fica a 800 metros da praia principal que, por ser a que tem melhores acessos, está sempre mais lotada. Por isso, íamos sempre para a praia do lado esquerdo, a dos Alteirinhos, ou do lado direito, a de Nossa Senhora. Todas as praias de Zambujeira são praias de falésia, ou seja, a vila fica no "topo" da falésia e temos de a descer para chegarmos ao areal. Actualmente, ambas as praias estão com os acessos mais facilitados, pois construíram escadas de madeira/pedra (coisa pouca, sensivelmente 700 escadas), mas há dez anos atrás tínhamos mesmo de descer de "sku" e, para subir, a única solução era mesmo trepar. Estas condições originavam praias desertas, no máximo com 40, 50 pessoas e eram muito procuradas por nudistas. Ou seja, do parque de campismo à praia principal eram 800 metros, outros tantos eram necessários para chegar às praias secundárias, sendo que pelo meio tínhamos de descer e subir falésias! Posso dizer que chegávamos ao fim do dia estourados e cheios de fome pois, para diminuir o peso e para não andarmos sempre a subir e a descer falésias, levávamos para a praia umas sandes, sumos e almoçávamos por lá.
Dez anos depois, estamos todos mais velhos, mais comodistas e mais cansados. Por isso, alugamos casa, vamos à praia de manhã, vimos a casa almoçar e voltamos à tarde para a praia.
Outra coisa que mudou muito Zambujeira foi sem dúvida o festival. Colocou a vila na rota dos festivais de Verão e do próprio turismo, o que trouxe coisas boas e más. A meu ver, e creio que para a maioria dos antigos visitantes de Zambujeira, a maioria são coisas menos boas. Os preços aumentaram significativamente, de tal forma que o peixe de aviário é bem mais caro que o que se vende no Porto (incompreensível numa vila pescatória), as refeições nos restaurantes e bares aumentaram igualmente (duas pessoas não comem por menos de 25€) e o próprio parque de campismo adoptou o preço especial "semana do festival". Isto sem me referir à própria semana do festival. Nunca passei lá férias nessa altura, mas no ano passado passei por lá na volta para o Porto, quando vinha do Algarve, e aquilo estava irreconhecível. Era impossível comprar qualquer coisa com a enormidade das filas de espera, as praias pareciam aquelas imagens de lagos artificiais no Japão onde só se vêm cabeças, as ruas e as casas de banho estavam imundas... um cenário inimaginável.
Mas pronto, se metermos na cabeça que a primeira quinzena de Agosto é para evitar e que os preços aumentaram no país inteiro, aconselho a visitar Zambujeira na última semana de Agosto, inícios de Setembro. As praias são verdadeiramente espectaculares e conservam o seu ar selvagem. Nas alturas de maré baixa, o areal é incrível e dá para passar de umas praias para as outras. Nos dias de maré alta, as ondas agitadas a baterem nas rochas no início do areal dão-nos um cenário deslumbrante.
Este ano, a praia de Nossa Senhora foi palco de um acontecimento triste e desolador, o único de que tenho memória de presenciar em Zambujeira. Estava eu na praia com a minha mãe e o Tiago quando nos apercebemos de uma concentração de pessoas nas rochas do lado esquerdo da praia. Eu e o Tiago andávamos a passear e ouvimos umas pessoas a comentar que um rapaz tinha desaparecido. Acabamos por saber que se tratava de um jovem de 24 anos que estava a praticar pesca submarina quando se sentiu mal, acabando por falecer, antes de as equipas de salvamento o encontrarem. Num espaço de uma hora, chegaram dois ou três nadadores salvadores, vários membros do INEM e dos bombeiros, um helicóptero e, imaginem só, uma câmara de televisão... de onde? Da TVI, claro está. Desde já os meus cumprimentos ao repórter de imagem... É que chegar ao local meia hora depois de alerta ser dado é coisa de Guiness... Não se esqueçam de que estamos a falar de Zambujeira do Mar, uma vila que para além do festival pouco ou nada aparece nas notícias e, mais impressionante ainda, o repórter desceu 700 escadas a pique com uma máquina profissional e um tripé, isto em pleno pico do calor. Quando, no dia seguinte, vi a reportagem na hora do almoço tive pena do jornalista... as únicas imagens que passaram foram as que ele filmou no topo da falésia. No entanto, foi das poucas vezes que vi a TVI a tratar de um assunto destes de forma menos sensacionalista, pois tinham imagens da aflição dos amigos do pescador e das várias tentativas de salvamento e no final resumiram-se às imagens da praia deserta e a uma entrevista de um minuto a uma testemunha, por sinal muito má escolhida pois só deu informações erradas.. errou na descrição do acontecimento e disse que a praia era procurada por surfistas - duvido muito que uma praia cheia de rochas seja procurada por surfistas...
Esta experiência fez-me pensar como cada vez mais o ser humano se centra no próprio umbigo. Estávamos perante um cenário único naquelas praias.. pelo menos eu passo lá férias aos anos e nunca vi nada de semelhante. Por outro lado, a praia não é muito grande, em 1/2 minutos vamos de um lado ao outro. Por outro lado, a quantidade de meios de salvamento que ali se encontravam (5 médicos do INEM, 7/10 bombeiros, nadadores-salvadores, lancha de salvamento, helicóptero) despertavam a atenção de qualquer um. E, no entanto, haviam alguns grupos de pessoas que continuavam as suas actividades como se nada estivesse a acontecer. Era o caso de dois casais de jovens, um que permanecia impavidamente no seu jogo de raquetes de praia e outro que estava em plena curte enquanto, nem a 10 metros de distância, os nadadores-salvadores tapavam o corpo já sem vida. Quando achamos que já vimos de tudo, surgem-nos pessoas de outro mundo.
Fiquei mais uns dias em Zambujeira e, ao contrário do que esperado, pouco ou nada se comentou sobre o sucedido. Claro que estas coisas, infelizmente, acontecem com alguma frequência, mas fica-nos sempre na memória a primeira vez em que somos testemunhas.
Vim-me embora na última segunda-feira do mês já com saudades da minha cidade e dos amigos que cá ficaram, mas parti com a certeza, quase absoluta, de que para o ano lá estarei de novo.
Nota: Imperdível
Ponto de paragem obrigatório desde os meus 13 anos, altura em que não existia festival e em que o turismo se resumia a alguns lisboetas e nortenhos, amantes de praias desertas e da calmaria alentejana. Conheci Zambujeira da mesma forma que conheci meio mundo, passando férias com o meu tio. Nos últimos anos, como vamos de férias com a minha avó, alugamos sempre uma casa perto da farmácia, a "Casa da Suíça" (o dono é emigrante) e quando vamos para praias mais afastadas vamos de carro. Mas à dez atrás ficávamos sempre em campismo e no carro só pegávamos para ir jantar fora, normalmente ao "Traquitanas" (já lá vamos há tanto tempo que o actual gerente/dono é o filho do patrão dessa altura).
Para quem não conhece Zambujeira, o parque de campismo fica a 800 metros da praia principal que, por ser a que tem melhores acessos, está sempre mais lotada. Por isso, íamos sempre para a praia do lado esquerdo, a dos Alteirinhos, ou do lado direito, a de Nossa Senhora. Todas as praias de Zambujeira são praias de falésia, ou seja, a vila fica no "topo" da falésia e temos de a descer para chegarmos ao areal. Actualmente, ambas as praias estão com os acessos mais facilitados, pois construíram escadas de madeira/pedra (coisa pouca, sensivelmente 700 escadas), mas há dez anos atrás tínhamos mesmo de descer de "sku" e, para subir, a única solução era mesmo trepar. Estas condições originavam praias desertas, no máximo com 40, 50 pessoas e eram muito procuradas por nudistas. Ou seja, do parque de campismo à praia principal eram 800 metros, outros tantos eram necessários para chegar às praias secundárias, sendo que pelo meio tínhamos de descer e subir falésias! Posso dizer que chegávamos ao fim do dia estourados e cheios de fome pois, para diminuir o peso e para não andarmos sempre a subir e a descer falésias, levávamos para a praia umas sandes, sumos e almoçávamos por lá.
Dez anos depois, estamos todos mais velhos, mais comodistas e mais cansados. Por isso, alugamos casa, vamos à praia de manhã, vimos a casa almoçar e voltamos à tarde para a praia.
Outra coisa que mudou muito Zambujeira foi sem dúvida o festival. Colocou a vila na rota dos festivais de Verão e do próprio turismo, o que trouxe coisas boas e más. A meu ver, e creio que para a maioria dos antigos visitantes de Zambujeira, a maioria são coisas menos boas. Os preços aumentaram significativamente, de tal forma que o peixe de aviário é bem mais caro que o que se vende no Porto (incompreensível numa vila pescatória), as refeições nos restaurantes e bares aumentaram igualmente (duas pessoas não comem por menos de 25€) e o próprio parque de campismo adoptou o preço especial "semana do festival". Isto sem me referir à própria semana do festival. Nunca passei lá férias nessa altura, mas no ano passado passei por lá na volta para o Porto, quando vinha do Algarve, e aquilo estava irreconhecível. Era impossível comprar qualquer coisa com a enormidade das filas de espera, as praias pareciam aquelas imagens de lagos artificiais no Japão onde só se vêm cabeças, as ruas e as casas de banho estavam imundas... um cenário inimaginável.
Mas pronto, se metermos na cabeça que a primeira quinzena de Agosto é para evitar e que os preços aumentaram no país inteiro, aconselho a visitar Zambujeira na última semana de Agosto, inícios de Setembro. As praias são verdadeiramente espectaculares e conservam o seu ar selvagem. Nas alturas de maré baixa, o areal é incrível e dá para passar de umas praias para as outras. Nos dias de maré alta, as ondas agitadas a baterem nas rochas no início do areal dão-nos um cenário deslumbrante.
Este ano, a praia de Nossa Senhora foi palco de um acontecimento triste e desolador, o único de que tenho memória de presenciar em Zambujeira. Estava eu na praia com a minha mãe e o Tiago quando nos apercebemos de uma concentração de pessoas nas rochas do lado esquerdo da praia. Eu e o Tiago andávamos a passear e ouvimos umas pessoas a comentar que um rapaz tinha desaparecido. Acabamos por saber que se tratava de um jovem de 24 anos que estava a praticar pesca submarina quando se sentiu mal, acabando por falecer, antes de as equipas de salvamento o encontrarem. Num espaço de uma hora, chegaram dois ou três nadadores salvadores, vários membros do INEM e dos bombeiros, um helicóptero e, imaginem só, uma câmara de televisão... de onde? Da TVI, claro está. Desde já os meus cumprimentos ao repórter de imagem... É que chegar ao local meia hora depois de alerta ser dado é coisa de Guiness... Não se esqueçam de que estamos a falar de Zambujeira do Mar, uma vila que para além do festival pouco ou nada aparece nas notícias e, mais impressionante ainda, o repórter desceu 700 escadas a pique com uma máquina profissional e um tripé, isto em pleno pico do calor. Quando, no dia seguinte, vi a reportagem na hora do almoço tive pena do jornalista... as únicas imagens que passaram foram as que ele filmou no topo da falésia. No entanto, foi das poucas vezes que vi a TVI a tratar de um assunto destes de forma menos sensacionalista, pois tinham imagens da aflição dos amigos do pescador e das várias tentativas de salvamento e no final resumiram-se às imagens da praia deserta e a uma entrevista de um minuto a uma testemunha, por sinal muito má escolhida pois só deu informações erradas.. errou na descrição do acontecimento e disse que a praia era procurada por surfistas - duvido muito que uma praia cheia de rochas seja procurada por surfistas...
Esta experiência fez-me pensar como cada vez mais o ser humano se centra no próprio umbigo. Estávamos perante um cenário único naquelas praias.. pelo menos eu passo lá férias aos anos e nunca vi nada de semelhante. Por outro lado, a praia não é muito grande, em 1/2 minutos vamos de um lado ao outro. Por outro lado, a quantidade de meios de salvamento que ali se encontravam (5 médicos do INEM, 7/10 bombeiros, nadadores-salvadores, lancha de salvamento, helicóptero) despertavam a atenção de qualquer um. E, no entanto, haviam alguns grupos de pessoas que continuavam as suas actividades como se nada estivesse a acontecer. Era o caso de dois casais de jovens, um que permanecia impavidamente no seu jogo de raquetes de praia e outro que estava em plena curte enquanto, nem a 10 metros de distância, os nadadores-salvadores tapavam o corpo já sem vida. Quando achamos que já vimos de tudo, surgem-nos pessoas de outro mundo.
Fiquei mais uns dias em Zambujeira e, ao contrário do que esperado, pouco ou nada se comentou sobre o sucedido. Claro que estas coisas, infelizmente, acontecem com alguma frequência, mas fica-nos sempre na memória a primeira vez em que somos testemunhas.
Vim-me embora na última segunda-feira do mês já com saudades da minha cidade e dos amigos que cá ficaram, mas parti com a certeza, quase absoluta, de que para o ano lá estarei de novo.
Nota: Imperdível






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