segunda-feira, janeiro 30, 2012

A ditadura do consumidor

Tive conhecimento através do facebook da Estrela Serrano que a FNAC decidiu retirar a campanha que tem dado que falar nos últimos dias. Em causa, está uma campanha de troca de livros em que se lia num dos placards promocionais o mote “Troque os Maias pela Meyer”.

Só tive conhecimento da campanha pelo facebook e, achando de mau gosto ver da mesma frase Eça e Meyer, a minha reacção ficou por aí. No meu gosto por literatura, Eça está a anos luz de Meyer e nunca faria essa troca, mas a bem da verdade repudio livros, filmes e afins que toquem na nova vertente do tema vampiresco. Tirando isso, até considerei a campanha em si interessante. Se é verdade que os 5€ pouco mais dão para comprar do que livros de bolso, é também verdade que é uma excelente forma de arranjar espaço na estante para novos livros. É a vertente comercial do bookcrossing, mas com o mesmo intuito para o consumidor: encontrar novas obras para enriquecimento cultural.

Durante o fim de semana, comecei a ver no feed do facebook inúmeras partilhas de links, textos de blogs e comentários a criticar a campanha da FNAC, uma nova avalanche de indignação perante a acção de uma marca. Como não me considero guru de coisa alguma, deixo apenas a minha opinião sobre este caso, replicando os comentários que deixei no mural da Estrela Serrano:

"Infelizmente as redes são usadas para críticas menos sérias. Se é verdade que o caso Ensitel mais que mereceu a revolta nas redes uma vez que tinha contornos de limitação da liberdade de expressão, com tribunais à mistura, qualquer um de nós sabe que no caso da FNAC o intuito foi somente utilizar a semelhança fonética dos autores/títulos, numa campanha que beneficiava consumidor e a AMI. De qualquer forma, as redes sociais também funcionam um pouco como a "ditadura" do consumidor perante a marca e o melhor que a FNAC tinha a fazer era cortar o mal pela raiz e fazer um comunicado, tal como o fez. (...)"

"A FNAC tirou partido de uma semelhança fonética e da popularidade da saga dos vampiros para vender, disso não há dúvidas, mas continuo a achar que se extrapolou em demasia o significado desta campanha. Em última análise, não compete à FNAC classificar um autor como clássico ou popular ou como sendo mais ou menos digno da atenção do leitor. A FNAC é um distribuidor e quer vender e se dá mais ou menos destaque a um autor é porque (1) é paga pela editora para isso e (2) porque tem projecção de maior venda/lucros e isso é ditado pelo consumidor. Usar esta campanha para dizer que a FNAC procurou denegrir a cultura portuguesa face a uma leitura mais popular é, na minha opinião, exagerado."

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